Defesa de Lulinha acusa setores da PF de atuação política em investigações
Advogado questiona condução das apurações
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, afirmou nesta quinta-feira (20) que parte dos integrantes da Polícia Federal estaria adotando uma postura política nas investigações que envolvem o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à GloboNews, o defensor declarou que haveria agentes alinhados ao bolsonarismo interessados em influenciar o cenário eleitoral. Segundo Carvalho, algumas linhas de investigação poderiam estar relacionadas à disputa pela reeleição de Lula.
As declarações colocam novamente as investigações no centro do debate político e jurídico, especialmente diante da proximidade das eleições de 2026 e da repercussão que o caso passou a provocar no Supremo Tribunal Federal (STF).
Defesa fala em conclusões antecipadas
Durante a entrevista, Carvalho afirmou que determinadas frentes da investigação estariam sendo conduzidas com base em conclusões previamente estabelecidas.
Na avaliação do advogado, integrantes da corporação estariam tentando transformar suspeitas em acusações antes da conclusão formal das diligências. Ele criticou o que classificou como utilização política de setores do Estado e afirmou que o sobrenome de Lulinha teria contribuído para a abertura e a continuidade das apurações.
A defesa sustenta que qualquer eventual responsabilidade deve ser estabelecida exclusivamente a partir de provas e procedimentos legais.
Carvalho também afirmou que pretende garantir transparência nas investigações e que os investigadores devem apresentar elementos concretos antes de atribuir qualquer irregularidade ao empresário.
Pedido da PGR aumenta disputa sobre o caso
As declarações do advogado ocorreram após a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitar ao ministro André Mendonça, do STF, que um dos inquéritos envolvendo Lulinha seja encaminhado à primeira instância da Justiça.
A Procuradoria argumentou que não haveria, entre os investigados, autoridade com prerrogativa de foro que justificasse a permanência do procedimento no Supremo.
A manifestação abriu uma discussão sobre qual instância deveria continuar responsável pela investigação. A decisão final caberá ao ministro André Mendonça, que poderá acolher ou rejeitar o pedido apresentado pela PGR.
Lulinha é citado em três inquéritos no STF, relacionados a diferentes suspeitas. Entre os assuntos investigados estão possíveis tratativas envolvendo o governo federal e a comercialização de medicamentos à base de canabidiol.
A existência dessas investigações, entretanto, não representa comprovação de crime ou responsabilidade por parte do empresário.
Advogado questiona vazamentos
Marco Aurélio de Carvalho também criticou a divulgação de informações relacionadas aos inquéritos.
Segundo o defensor, dados protegidos por sigilo teriam sido vazados durante o andamento das apurações. Para ele, é necessário identificar quem teria repassado essas informações e em quais circunstâncias.
O advogado afirmou ainda que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, estaria entre as pessoas prejudicadas por uma suposta disputa interna dentro da instituição.
Carvalho relatou que já levou suas preocupações ao ministro André Mendonça durante uma audiência e afirmou que, no início do ano, colocou à disposição da Justiça os sigilos bancário e fiscal de Lulinha.
De acordo com o defensor, a iniciativa teve como objetivo ampliar a transparência e permitir que os dados financeiros do empresário fossem analisados pelas autoridades responsáveis.
Comparação com investigações sobre Bolsonaro
Durante a entrevista, Carvalho também estabeleceu uma comparação entre o tratamento dado às investigações envolvendo Lulinha e episódios relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O advogado afirmou que, caso Lulinha fosse filho do ex-presidente, a investigação provavelmente não teria avançado da mesma maneira.
Como exemplo, mencionou o episódio envolvendo Sergio Moro e Bolsonaro em 2020, quando Moro deixou o Ministério da Justiça e acusou o então presidente de tentar interferir na Polícia Federal.
Na época, a acusação estava relacionada à suposta intenção de obter informações de investigações sigilosas envolvendo familiares e aliados. Em 2022, a PGR pediu o arquivamento do caso por entender que não havia crime na conduta analisada.
Posteriormente, em outubro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes determinou a retomada da investigação após solicitação da Procuradoria. Em abril deste ano, a Polícia Federal encaminhou novo relatório a Moraes e concluiu novamente que Bolsonaro não teria interferido na corporação.
Defesa contesta possível motivação política
A estratégia apresentada por Marco Aurélio de Carvalho procura colocar em dúvida não apenas determinadas informações divulgadas sobre o caso, mas também a motivação de parte das diligências.
O advogado sustenta que setores da Polícia Federal poderiam estar utilizando as investigações com objetivos políticos em razão da disputa eleitoral.
Essa interpretação, contudo, representa a posição da defesa e não uma conclusão oficial da Polícia Federal, da PGR ou do Supremo Tribunal Federal.
Até o momento, eventuais acusações de atuação política dentro da corporação dependem de comprovação. As investigações continuam sendo conduzidas e os elementos reunidos deverão ser avaliados pelas autoridades responsáveis.
Discussão sobre competência do STF
Além das acusações feitas pelo advogado, a definição sobre o foro da investigação permanece como um dos principais pontos do caso.
A PGR defende que um dos inquéritos seja enviado à primeira instância por entender que não existem autoridades com prerrogativa de foro que justifiquem a atuação do Supremo.
A decisão de André Mendonça poderá determinar se o procedimento continuará no STF ou será encaminhado à Justiça Federal de primeira instância.
Uma eventual transferência, porém, não representaria o encerramento da investigação. As diligências poderiam continuar normalmente, apenas sob responsabilidade de outro órgão judicial.
Caso permanece sob análise
As declarações de Marco Aurélio de Carvalho acrescentam uma dimensão política à disputa em torno das investigações envolvendo Lulinha.
De um lado, a defesa questiona a condução de determinadas diligências, denuncia possíveis vazamentos e afirma que setores da Polícia Federal poderiam estar interessados em influenciar o cenário eleitoral. De outro, as autoridades responsáveis ainda precisam analisar os elementos reunidos e definir os próximos passos processuais.
Enquanto isso, o pedido da PGR para transferir um dos inquéritos para a primeira instância aguarda análise do ministro André Mendonça.
O caso deverá continuar provocando repercussão durante a campanha eleitoral, especialmente porque envolve o filho do presidente da República e investigações relacionadas a possíveis contatos com órgãos do governo.
Até que as apurações sejam concluídas, as suspeitas devem ser tratadas como hipóteses investigativas, e as acusações apresentadas pela defesa como manifestações da estratégia jurídica de Lulinha. A definição sobre eventuais responsabilidades dependerá das provas reunidas e das decisões das autoridades competentes.
