PF pede mais 90 dias para investigar financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro
A Polícia Federal (PF) solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prorrogação por mais 90 dias do prazo para concluir a investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção cinematográfica baseada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O caso envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no contexto das movimentações financeiras relacionadas à produção.
O pedido foi encaminhado às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, cuja votação está prevista para daqui a nove dias, conforme o calendário mencionado na investigação. A Polícia Federal argumenta que precisa de mais tempo para examinar documentos, transações financeiras e comunicações atribuídas aos envolvidos antes de apresentar um relatório conclusivo.
A solicitação amplia o período de análise de um caso que ganhou relevância tanto pelas cifras envolvidas quanto pelas possíveis implicações jurídicas para as pessoas mencionadas no inquérito.
Investigação envolve conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
Entre os elementos analisados pela Polícia Federal estão transcrições de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, além de documentos relacionados aos repasses financeiros destinados ao filme.
Segundo os investigadores, mensagens e áudios atribuídos ao senador indicariam sua participação no acompanhamento das negociações e na cobrança pela liberação dos recursos prometidos para a produção cinematográfica.
A PF busca esclarecer qual foi o papel de cada pessoa envolvida nas tratativas, como os valores foram movimentados e se as operações seguiram as exigências legais aplicáveis. O objetivo também é identificar a origem dos recursos e verificar se houve irregularidades na estrutura utilizada para financiar o projeto.
No pedido de prorrogação, a corporação menciona a possibilidade de que os fatos investigados estejam relacionados, em tese, a crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva e organização criminosa.
Essas referências representam linhas de investigação, e não uma conclusão definitiva sobre a ocorrência de crimes. A eventual responsabilização dos envolvidos dependerá da análise das provas e das decisões das autoridades competentes.
Prazo inicial terminou em outubro
O inquérito foi instaurado em julho, a partir de uma solicitação da Polícia Federal que recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
O prazo inicialmente estabelecido para a apresentação do relatório final terminou em 10 de outubro. Como os investigadores consideram que ainda existem diligências pendentes, a corporação pediu a ampliação do período por mais três meses.
A prorrogação permitiria aprofundar a análise das conversas, conferir os registros das transferências e examinar a documentação financeira reunida durante os trabalhos.
O caso está sob a relatoria do ministro André Mendonça, do STF, a quem foi dirigido o pedido. Temporariamente, porém, o processo encontra-se no gabinete do presidente da Corte, ministro Edson Fachin.
A definição sobre a extensão do prazo deverá permitir que a investigação prossiga dentro dos procedimentos judiciais aplicáveis. Até que sejam concluídas as diligências, os investigadores continuarão reunindo elementos para esclarecer as circunstâncias do financiamento.
Filme teria recebido promessa de investimento de R$ 134 milhões
Um dos principais pontos da apuração envolve o volume de recursos que teriam sido prometidos para viabilizar Dark Horse. Conforme as informações apresentadas pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro teria se comprometido a investir aproximadamente R$ 134 milhões na produção, quantia equivalente a cerca de US$ 24 milhões.
Os investigadores também apontam que cerca de R$ 62 milhões, descritos nas informações do caso como aproximadamente US$ 12,3 milhões, teriam sido transferidos entre fevereiro e setembro de 2025.
A diferença entre o montante supostamente prometido e os valores apontados como transferidos é um dos aspectos que precisam ser esclarecidos. A PF procura determinar como os recursos foram disponibilizados, quais empresas participaram das operações e qual foi a destinação efetiva do dinheiro.
A investigação também pretende verificar se os registros financeiros correspondem às negociações realizadas entre os envolvidos e se existem elementos que indiquem irregularidades na movimentação dos valores.
Empresa e fundo norte-americano estão no centro das apurações
A estrutura financeira utilizada para viabilizar os recursos também integra o inquérito. Entre os nomes examinados estão a empresa Entre Investimentos e o fundo norte-americano Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos.
Segundo as informações reunidas pela investigação, o fundo era administrado por Altieris Santana e Paulo Calixto, advogado descrito como próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Os investigadores procuram compreender a função dessas estruturas nas operações financeiras e identificar a relação entre os recursos movimentados e o financiamento do filme.
As informações apontam ainda que o fundo teria sido criado para participar de um empreendimento imobiliário no Texas que não chegou a ser construído. A PF busca esclarecer de que maneira essa estrutura se relaciona com as transferências examinadas no inquérito.
A análise dessas operações é considerada relevante para estabelecer o caminho percorrido pelo dinheiro, identificar os responsáveis pelas decisões financeiras e verificar se houve alguma incompatibilidade entre a finalidade declarada das transações e sua destinação efetiva.
Defesa de Flávio Bolsonaro afirma não ter acesso aos documentos
Procurada pelo UOL, a defesa de Flávio Bolsonaro informou que ainda não teve acesso à documentação mencionada no caso.
A manifestação indica que, até aquele momento, os advogados afirmavam não conhecer integralmente os elementos citados pelos investigadores. Sem acesso aos documentos, não é possível atribuir à defesa uma avaliação detalhada sobre o conteúdo das conversas ou das operações financeiras sob análise.
O andamento do inquérito deverá permitir que as autoridades examinem os elementos reunidos e esclareçam as questões que permanecem em aberto.
PF quer concluir a análise antes de apresentar relatório
Com o pedido de mais 90 dias, a Polícia Federal pretende ampliar o tempo disponível para examinar as transações financeiras, verificar as comunicações e concluir as diligências consideradas necessárias.
A investigação busca esclarecer a origem dos recursos destinados a Dark Horse, a participação dos envolvidos e a finalidade das estruturas utilizadas para movimentar o dinheiro.
Por enquanto, as suspeitas permanecem sob apuração. O pedido de prorrogação não representa uma conclusão sobre a existência de crimes nem estabelece, por si só, a responsabilidade de qualquer pessoa mencionada no caso.
A definição sobre o prazo e o resultado das diligências serão etapas importantes para determinar quais elementos poderão integrar o relatório final e se haverá fundamento para medidas posteriores no âmbito judicial.
