Mendonça chama STF de “ápice do poder” e relata “muita infelicidade” na Corte

André Mendonça relata pressão no STF e faz alerta sobre poder e dinheiro

Ministro descreve os desafios de ocupar uma cadeira no Supremo

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez uma reflexão incomum sobre os desafios pessoais e profissionais enfrentados por quem ocupa uma das posições de maior influência no Judiciário brasileiro. Durante o Seminário Nacional da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado na última sexta-feira (21), o magistrado afirmou que integrar o Supremo representa o “máximo do poder humano em termos jurídicos”.

Apesar do prestígio associado ao cargo, Mendonça ressaltou que a posição também envolve responsabilidades, cobranças e uma pressão constante. Ao falar sobre seus primeiros anos na Corte, o ministro afirmou que esse período foi marcado por “muita infelicidade”, declaração que chamou atenção justamente por partir de um integrante de uma das instituições mais importantes do país.

Poder não significa realização pessoal

Durante sua participação no evento, Mendonça procurou diferenciar prestígio profissional de satisfação pessoal. Na avaliação do ministro, alcançar uma posição de grande autoridade não significa necessariamente encontrar felicidade ou tranquilidade.

O magistrado também aconselhou outros integrantes da carreira jurídica a não colocarem o poder e o dinheiro no centro de suas vidas. Segundo ele, transformar esses elementos em objetivos principais pode provocar frustração.

A mensagem foi apresentada especialmente aos magistrados presentes no seminário. Para Mendonça, o exercício da magistratura deve estar associado principalmente ao cumprimento de responsabilidades e à consciência sobre as consequências das decisões tomadas, e não à busca por riqueza ou status.

Alerta sobre dinheiro e padrão de vida

A questão financeira também ocupou espaço relevante na fala do ministro. Mendonça afirmou que juízes e ministros não deveriam ingressar na carreira com a expectativa de enriquecer.

Segundo ele, embora a remuneração da magistratura seja elevada em comparação com grande parte das profissões brasileiras, isso não significa que o ocupante do cargo possa deixar de administrar cuidadosamente suas despesas.

Atualmente, o salário-base de um ministro do STF é de R$ 46.366,19. Dados mencionados no contexto da declaração mostram que Mendonça recebeu aproximadamente R$ 30,4 mil líquidos em julho. Em maio, o valor líquido registrado foi de R$ 18,8 mil, o menor entre os ministros da Corte naquele mês.

A diferença entre os valores evidencia que a remuneração efetivamente recebida pode sofrer variações em razão de descontos e outros fatores. Ainda assim, Mendonça reforçou que um magistrado precisa manter controle sobre seus gastos e não deve enxergar o cargo como um caminho para enriquecimento.

Nomeação ocorreu no governo Bolsonaro

André Mendonça chegou ao STF em dezembro de 2021, após ser indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro. Antes de assumir uma cadeira na Corte, ocupou os cargos de advogado-geral da União e ministro da Justiça e Segurança Pública.

Sua indicação também teve uma característica histórica: Mendonça se tornou o primeiro ministro evangélico nomeado para o Supremo. A escolha recebeu destaque entre setores religiosos e políticos ligados ao governo Bolsonaro e foi celebrada publicamente pela então primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Desde sua chegada ao tribunal, Mendonça passou a participar de julgamentos e a conduzir processos de grande repercussão nacional, ampliando sua exposição pública e institucional.

Relatoria do caso Master aumentou exposição

Um dos episódios que colocaram o ministro no centro do debate jurídico ocorreu em 2026, quando Mendonça recebeu a relatoria do chamado caso Master. A redistribuição aconteceu depois de o ministro Dias Toffoli solicitar que os processos fossem encaminhados a outro integrante da Corte.

A mudança ocorreu em meio a questionamentos relacionados à relação de Toffoli com Daniel Vorcaro. O Supremo, entretanto, afirmou não haver fundamento para reconhecer suspeição ou impedimento do ministro e validou os atos praticados por ele antes da redistribuição.

Posteriormente, a atuação de Mendonça no caso ganhou ainda mais destaque. Em março, o ministro determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, atendendo a um pedido da Polícia Federal baseado na possibilidade de interferência nas investigações.

A decisão ampliou a atenção sobre o gabinete de Mendonça e demonstrou o peso de processos que chegam ao Supremo.

Ministro também relata investigações envolvendo o INSS

Além do caso Master, Mendonça atua como relator de procedimentos relacionados à Operação Sem Desconto. As investigações deram origem a procedimentos independentes envolvendo suspeitas de tráfico de influência relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A quantidade e a relevância dos processos sob responsabilidade do ministro ajudam a explicar o nível de pressão associado à função. Decisões tomadas pelo STF frequentemente produzem efeitos que ultrapassam o campo jurídico e alcançam a política, a economia e questões sociais de grande repercussão.

Reflexão sobre o peso da magistratura

As declarações de André Mendonça apresentam uma perspectiva menos comum sobre a vida de quem ocupa uma cadeira no Supremo. Em vez de destacar apenas o prestígio, a autoridade e a remuneração associados ao cargo, o ministro chamou atenção para o peso das responsabilidades e para os efeitos pessoais provocados pela exposição constante.

Ao afirmar que seus primeiros anos no STF foram marcados por “muita infelicidade”, Mendonça expôs uma dimensão humana de uma função normalmente observada pelo público a partir de suas decisões e aparições institucionais.

Sua mensagem aos magistrados foi, portanto, uma defesa de equilíbrio. Para o ministro, poder e dinheiro não devem ser confundidos com realização pessoal. A autoridade proporcionada por uma posição no Judiciário vem acompanhada de cobranças e consequências que exigem preparo emocional, responsabilidade e consciência sobre o papel desempenhado.

Em um ambiente no qual decisões judiciais podem influenciar diretamente os rumos políticos e sociais do país, Mendonça ressaltou que o prestígio de ocupar uma das cadeiras mais importantes do Brasil também traz um custo pessoal. Sua reflexão coloca em evidência que, por trás dos julgamentos e dos holofotes, existe uma rotina marcada por pressão, expectativas e responsabilidades permanentes.

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