Fux vota por manter exploração de jogos de azar como contravenção, mas julgamento é interrompido

STF retoma debate sobre jogos de azar e votação pode afetar bets no Brasil

Fux defende manutenção da proibição

O Supremo Tribunal Federal (STF) avançou nesta quinta-feira (7) na análise de um processo que pode estabelecer novos parâmetros para a exploração de jogos de azar presenciais no Brasil. Durante o julgamento, o ministro Luiz Fux votou pela manutenção do enquadramento como contravenção penal de atividades como bingo, jogo do bicho, caça-níqueis e cassinos.

Na avaliação de Fux, a legislação que restringe essas modalidades é compatível com a Constituição Federal e pode ser justificada pelos possíveis impactos sociais, econômicos e relacionados à segurança pública provocados pela exploração dessas atividades.

O ministro também destacou que os efeitos dos jogos de azar podem alcançar não apenas os apostadores, mas seus familiares e o patrimônio das pessoas envolvidas. Outro ponto mencionado foi a possibilidade de atividades clandestinas estarem associadas a organizações estruturadas e à movimentação irregular de recursos financeiros.

Julgamento é interrompido por pedido de vista

A análise do processo, porém, não foi concluída. O ministro Flávio Dino pediu vista, interrompendo temporariamente o julgamento para examinar com mais profundidade os argumentos apresentados.

Dino acompanhou a posição de Fux em relação à manutenção dos jogos de azar presenciais como contravenção penal, mas indicou a necessidade de ampliar a discussão para outras modalidades de apostas existentes no país.

O pedido de vista possui prazo de até 90 dias, o que significa que o julgamento poderá ser retomado somente nos próximos meses. Até a conclusão da análise pelo Supremo, permanece vigente o entendimento atualmente aplicado à exploração dos jogos de azar presenciais.

Discussão também alcança as bets

Embora o processo analisado não trate diretamente das apostas esportivas realizadas pela internet, conhecidas popularmente como bets, o tema acabou entrando no debate.

Fux ressaltou que o processo específico não envolve as modalidades de apostas online. Dino, entretanto, defendeu uma análise mais ampla sobre o conjunto de atividades relacionadas aos jogos de azar, argumentando que as apostas virtuais também fazem parte desse universo.

A discussão pode ganhar importância porque o Brasil passou, nos últimos anos, por mudanças legislativas que regulamentaram determinadas modalidades de apostas online. A eventual definição de critérios mais abrangentes pelo STF poderá influenciar debates futuros sobre fiscalização, publicidade e proteção dos consumidores.

Medidas contra dependência

Durante sua manifestação, Flávio Dino apresentou sugestões relacionadas à regulamentação das atividades permitidas por lei. Entre as propostas está a criação de mecanismos que destinem parte da arrecadação ao Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente para iniciativas de prevenção e tratamento da dependência em jogos.

O ministro também defendeu medidas destinadas a preservar a integridade das competições e impedir práticas como manipulação de resultados e conflitos de interesse.

Outro ponto mencionado foi a publicidade. A proposta prevê regras específicas para campanhas direcionadas ao público adulto, além da utilização de alertas sobre os riscos de dependência.

Dino também chamou atenção para a utilização de recursos tecnológicos que possam estimular comportamentos compulsivos. A ideia seria criar mecanismos capazes de impedir que plataformas de apostas utilizem ferramentas para intensificar esse tipo de comportamento entre os usuários.

Caso começou com caça-níqueis no Rio Grande do Sul

A discussão que chegou ao STF teve origem em um processo envolvendo máquinas caça-níqueis em um estabelecimento comercial de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

A Justiça estadual havia absolvido o responsável pela exploração dos equipamentos após considerar a possibilidade de que a Constituição de 1988 tivesse alterado a validade das normas que proibiam os jogos de azar.

Esse entendimento passou a ser utilizado em outros processos semelhantes, provocando divergências entre decisões judiciais no estado. Diante da relevância da questão, o STF reconheceu, em 2016, a existência de repercussão geral.

Isso significa que a decisão definitiva da Corte deverá servir de referência para processos semelhantes em todo o território nacional.

Milhares de processos aguardam decisão

A importância do julgamento pode ser medida pelo número de processos que aguardam uma definição do Supremo. Atualmente, pelo menos 2.728 ações estão suspensas em diferentes instâncias enquanto a Corte não estabelece uma posição definitiva sobre a validade da criminalização dos jogos de azar.

Uma decisão do STF poderá, portanto, produzir efeitos que ultrapassam o caso original e orientar a atuação da Justiça em situações envolvendo diferentes modalidades de exploração de jogos presenciais.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) também defende a manutenção da exploração dos jogos de azar presenciais como contravenção penal. Durante o julgamento, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, destacou preocupações relacionadas ao crescimento dos casos de dependência em apostas.

Segundo a posição apresentada pela PGR, a restrição das atividades pode funcionar como mecanismo de proteção dos próprios apostadores, de seus patrimônios e de suas famílias.

Próximos passos podem envolver as apostas online

Com o julgamento interrompido, a discussão deverá permanecer em aberto até que Flávio Dino conclua sua análise e o processo volte à pauta do plenário.

Luiz Fux também informou que existem outras ações sob sua relatoria relacionadas especificamente às apostas esportivas online. O ministro indicou que deverá verificar se esses processos já estão em condições de serem encaminhados para julgamento.

Dessa maneira, o debate iniciado a partir das máquinas caça-níqueis poderá ganhar dimensões ainda maiores. A decisão definitiva do STF terá potencial para estabelecer parâmetros sobre a validade das restrições aos jogos de azar presenciais e, indiretamente, influenciar futuras discussões sobre as modalidades de apostas autorizadas no ambiente digital.

O julgamento representa, portanto, mais uma etapa de uma discussão que envolve liberdade individual, proteção social, arrecadação, segurança pública e regulamentação do mercado de apostas. O resultado final deverá definir como esses diferentes interesses serão conciliados no ordenamento jurídico brasileiro.

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