‘Lula vive um efeito Biden’, diz cientista política americana sobre desânimo do eleitorado brasileiro por conta de acertos

 

Cientista política compara cenário de Lula ao de Biden e avalia desafios para as eleições de 2026

Especialista aponta redução do entusiasmo do eleitorado

A cientista política americana Wendy Hunter, reconhecida por seus estudos sobre a política brasileira e sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), avaliou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega às eleições presidenciais de 2026 enfrentando um cenário semelhante ao vivido pelo ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden antes do encerramento de seu mandato.

Segundo a pesquisadora, embora os indicadores econômicos brasileiros não apresentem um quadro considerado negativo, existe entre parte da população uma percepção de desânimo que influencia diretamente o ambiente político. Na avaliação dela, esse sentimento reduz o entusiasmo em torno de uma eventual candidatura à reeleição e representa um dos principais desafios para a campanha do presidente.

Hunter observa que a situação não está necessariamente relacionada aos resultados econômicos, mas à forma como parte do eleitorado enxerga o momento político do país. Para ela, esse fenômeno também foi percebido em outras democracias e demonstra que bons indicadores nem sempre são suficientes para garantir elevado apoio popular.

Mudança geracional altera comportamento dos eleitores

Um dos principais pontos destacados pela cientista política é a transformação do perfil do eleitor brasileiro, especialmente entre os mais jovens.

Segundo Hunter, as novas gerações já não enxergam o PT da mesma maneira que os eleitores das décadas anteriores. Enquanto o partido foi visto durante muitos anos como símbolo de renovação política e ascensão social, os jovens passaram a valorizar outros aspectos relacionados à vida profissional e ao desenvolvimento pessoal.

Na avaliação da especialista, temas como empreendedorismo, autonomia financeira, trabalho por conta própria e modelos mais flexíveis de ocupação ganharam espaço nas prioridades dessa parcela da população. Em contrapartida, o emprego tradicional com carteira assinada deixou de representar o principal objetivo para muitos brasileiros.

Ela acredita que parte dos analistas políticos ainda não compreendeu completamente essa mudança de comportamento, o que pode dificultar a interpretação das tendências eleitorais observadas nos últimos anos.

Polarização continua dominando a disputa presidencial

Ao analisar o cenário para a eleição presidencial de 2026, Wendy Hunter considera pouco provável o surgimento de uma candidatura capaz de romper a polarização entre os principais grupos políticos do país.

Segundo sua avaliação, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro concentram grande parte das intenções de voto, reduzindo significativamente o espaço para candidatos que tentem construir uma alternativa fora desses dois polos.

Na visão da pesquisadora, esse cenário dificulta o fortalecimento de uma chamada terceira via, já que os eleitores tendem a concentrar suas preferências em nomes considerados mais competitivos.

Ela ressalta que esse fenômeno não é exclusivo do Brasil e tem sido observado em diversas democracias, onde disputas altamente polarizadas acabam reduzindo as possibilidades para candidatos independentes ou pertencentes a partidos menores.

Perfil político de Lula é visto como pragmático

Durante a entrevista, Hunter afirmou que considera Luiz Inácio Lula da Silva um político mais pragmático do que propriamente ideológico.

Segundo ela, ao longo de sua trajetória política, o presidente priorizou programas voltados para questões econômicas e sociais, como combate à pobreza, ampliação da renda das famílias e iniciativas relacionadas à renegociação de dívidas.

Na avaliação da cientista política, essas pautas sempre ocuparam posição central nos governos petistas, enquanto debates ligados a temas identitários tiveram menor protagonismo na agenda presidencial.

Apesar desse entendimento, Hunter fez críticas ao histórico apoio de Lula a líderes latino-americanos como Nicolás Maduro e Hugo Chávez. Para ela, esse posicionamento contribui para transmitir a imagem de que parte do partido permanece vinculada a referências políticas do passado.

Futuro do PT sem Lula preocupa especialistas

Outro tema abordado foi a sucessão dentro do Partido dos Trabalhadores.

Segundo Wendy Hunter, a legenda poderá enfrentar dificuldades quando Lula deixar definitivamente a vida política, devido à ausência de lideranças nacionais com o mesmo nível de popularidade e capacidade de mobilização.

Na avaliação da pesquisadora, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, aparece como o nome mais evidente para representar o partido em futuras disputas presidenciais. No entanto, ela acredita que o atual ministro ainda enfrenta limitações para ampliar seu alcance junto a diferentes segmentos do eleitorado.

Para Hunter, a renovação das lideranças será um dos principais desafios do PT nos próximos anos.

Segurança pública deve ganhar protagonismo

A cientista política também destacou que a segurança pública tende a ocupar posição de destaque durante a campanha presidencial.

Segundo ela, o crescimento da preocupação dos brasileiros com a criminalidade poderá levar o governo a apresentar propostas mais consistentes para o setor, buscando responder a uma das principais demandas da população.

Hunter reconhece ainda que políticas sociais implementadas ao longo das últimas décadas contribuíram para reduzir os índices de pobreza no país. Entretanto, argumenta que a melhoria da qualidade da educação continua sendo o instrumento mais eficaz para diminuir as desigualdades sociais de forma permanente.

Tarifas americanas podem influenciar o debate político

Ao comentar o cenário internacional, Wendy Hunter afirmou que as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros podem produzir reflexos no ambiente político nacional.

Na avaliação da pesquisadora, a proximidade política entre integrantes da família Bolsonaro e o governo americano pode levar parte do eleitorado a associar essas medidas ao campo da oposição, criando um contexto potencialmente favorável ao presidente Lula durante a campanha.

Apesar de considerar que o atual presidente enfrenta um ambiente semelhante ao observado nos últimos meses do governo Joe Biden, Hunter acredita que Lula continua sendo um candidato competitivo para a eleição de 2026. No entanto, ressalta que uma eventual campanha deverá ocorrer em um cenário marcado por menor entusiasmo popular, mudanças no perfil do eleitorado e desafios cada vez maiores para conquistar novos segmentos da sociedade.

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